Pode-se caracterizar o conceito de luto como um movimento necessário de ressignificação da perda ocorrida, seja por separação, morte ou outro evento. O processo de luto seria, portanto, uma adaptação à perda. O COVID-19 se apresentou como uma possibilidade de começarmos a olhar mais para o fenômeno da morte, dos rituais de despedida, do isolamento e distanciamento, perdas de empregos, familiares, amigos, perda da rotina em contrapartida a apresentação de um novo estilo de vida prescrito para garantir o máximo de segurança contra o vírus.
Falar sobre morte ainda assusta. Quem está preparado para sua chegada? Como será depois que cruzarmos esta linha? Existem muitas formas de compreender a morte e vida após a morte, mas não podemos fazer dela um processo reversível. A morte é uma condição da vida. Entretanto, por vezes é tão traumático lidar com os traumas da perda, que preferimos não olhar para as feridas.
Todos temos experiências que atravessam a nossa existência e que parecem puxar o tapete, contudo, normalmente somos capazes de elaborar a dor da perda sem ajuda profissional. O luto começa a se tornar patológico quando começa a trazer prejuízos significativos à vida do indivíduo. Um luto não elaborado pode acarretar uma série de consequências a nível emocional, físico, social, psicológico e espiritual.
A morte sempre foi considerada um tema impertinente (ESCUDEIRO, 2011). Não somos ensinados a lidar com a frustração, a como lidar com figuras de apego, a perceber a importância da rede de apoio, a lidar com a dor, lidar com uma pessoa que se foi e tantos outros. Isso cria um vácuo na nossa compreensão de vida e morte que pode levar a um luto não adaptativo. Isso pode trazer sérias consequências.
Estudos da psicologia que relatam os diversos tipos de luto compreendem que sob determinados suportes, podemos enfrentar o processo de luto, e mesmo, quando falamos de educação para morte, falamos também de prevenção às condições de adoecimento mental.
Diante da atual situação da pandemia, os processos de luto se evidenciam como um alarmante dado sob as condições de saúde, visto que, os rituais fúnebres - tão importante para o processo de elaboração do luto foram vedados dada a condição de contágio do vírus, como também o acompanhamento dos familiares ao paciente nos hospitais.
Pode-se considerar que a alta taxa de mortalidade trouxe à tona as sombras envoltas no tema da morte. Podemos evidenciar o conceito de luto coletivo, considerado quando diversas pessoas vivenciam a perda sobre determinado fenômeno e sofrem suas reações (ESCUDEIRO, 2011). O ano de 2020 e 2021 ofereceu para a sociedade diversos tipos de luto coletivo, a perda por mortes, perda de empregos, perda de rotina, perda de contato com pessoas importantes, perda da sensação de segurança. Trouxe consigo, também, a fragilidade da vida, o relógio do tempo e não controle sobre os fatos que ocorrem. Esses, podem ser geradores de dores e sofrimentos psíquicos muito intensos.
Estudam correlacionam a experiência de luto ao campo psicanalítico caracterizando-o como um como um “rompimento ou perda significativa entre o ser e seu objeto” (SANTIAGO, 2017, p. 12). Por vezes os sintomas percebidos no enlutado são característicos de uma depressão maior, pela forma da dor e do sofrimento apresentado, como o sentimento de tristeza profunda, insônia, perda de sentido na vida, perda de peso e de apetite. Muitos teóricos convergem que há um período estimado de elaboração do luto de cerca de seis meses, variando conforme a cultura e as compreensões teóricas. Santiago (2017) estima que o tempo aproximado para o luto é de cerca de dois meses e que após este período, os sintomas podem começar a ser visto como características de um processo depressivo.
Kübler-Ross (1981) destaca em seus estudos que a forma do homem lidar com a morte se alterou durante a história e diante das diferentes culturas, mas que em certo sentido o homem continua o mesmo diante desta temática. A morte ainda traz um pavor e um medo universal diante do imprevisível e do desconhecido. Por isso, diversas maneiras de lidar com a temática foram sendo desenvolvidas, inclusive no campo científico.
Falar sobre saúde mental, autocuidado, morte e COVID-19 se tornam fundamentais para garantir que de fato as pessoas possam ter acesso ao conhecimento científico. É sabido que esses três fatores podem direcionar a necessidade de intervenções profissionais.
Os processos de terminalidade, participação da família no adoecimento, entre outros fatores somam-se ao contexto do medo do contágio, necessidade de distanciamento social e novas adaptações para vivenciar o processo do luto. Para isso, é necessário que as informações cheguem até as pessoas. Falar sobre morte, sobre perdas, se antes era importante, agora se torna crucial.
Se você sente que precisa de ajuda profissional para passar por esse momento de sofrimento decorrente do luto, procure ajuda profissional!